Segundo o médico e terapeuta João Borzino a patologizaçãodas emoções tem virado entretenimento
Vivemos numa era curiosa, em que sentimentos humanos universais estão sendo tratados como raridades clínicas ou como variações exóticas da sexualidade. A mais recente invenção nesse circo semântico é a chamada zelofilia — uma suposta parafilia definida como “excitação sexual provocada pelo ciúmes”. Aquele sentimento corriqueiro que acompanha relacionamentos humanos desde que o mundo é mundo, agora estaria sendo enquadrado em um novo tipo de fetiche. E claro, como em tantos outros modismos pseudoacadêmicos, o termo já circula nas redes sociais como se fosse diagnóstico válido, tratado em portais de comportamento como algo digno de investigação científica, mesmo sem qualquer respaldo técnico sério.
Mas o que está por trás dessa ânsia por nomear, rotular e classificar cada variação emocional como um fenômeno clínico ou psicosexual? De acordo com o médico e terapeuta sexual, João Borzino mais do que uma curiosidade bizarra, a zelofilia é sintoma de algo maior: a falência do pensamento crítico diante da sedução do sensacionalismo. “Estamos trocando o rigor científico por manchetes virais — e pagando um preço alto por isso”, diz Borzino.
De acordo com o médico, Zelofilia é um termo que não consta em nenhum manual diagnóstico reconhecido internacionalmente, como o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) ou a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças).
“Não é considerado uma parafilia oficial, tampouco tem base empírica sólida. Seu uso emergiu principalmente de fóruns online e espaços que misturam entretenimento com psicologia pop. A ideia central gira em torno da excitação sexual gerada pela experiência ou indução do ciúmes — seja sentir ciúmes ou provocar ciúmes no(a) parceiro(a)”.
João Borzino afirma que, em essência, o termo tenta capturar um tipo de fetiche emocional. Mas o faz com um problema grave: ao transformar uma emoção amplamente vivida por bilhões de pessoas em uma “condição”, esvazia-se sua complexidade e normalidade.
“O ciúmes é, acima de tudo, uma resposta emocional profundamente enraizada em nossa biologia evolutiva. Ele está ligado à proteção do vínculo afetivo e à percepção (real ou imaginada) de ameaça à exclusividade relacional. Patologizá-lo, sem critério, é não apenas um erro conceitual — é uma traição à própria ciência psicológica”.
A Patologização da Vida Emocional
O médico pondera que há uma tendência crescente em nossa cultura contemporânea: converter qualquer desconforto emocional em distúrbio. “A linha entre sofrimento humano e patologia clínica está sendo constantemente apagada por discursos simplistas, emocionalmente sedutores, mas intelectualmente desonestos”.
Borzino enfatiza que transformar ciúmes em parafilia é apenas mais um capítulo nesse roteiro. “Antes dele, já assistimos à multiplicação de rótulos para qualquer traço de personalidade ou reação emocional: a timidez virou “fobia social”, a impulsividade virou “TDAH adulto”, a tristeza tornou-se “depressão” sem critério, e agora, o ciúmes vira “zelofilia”. O problema não é reconhecer que certos padrões podem sim ser excessivos ou disfuncionais. O problema é que o diagnóstico deixou de ser resultado de avaliação profissional criteriosa e passou a ser um tipo de identidade assumida por autodeclaração”.
“Com isso, substituímos a responsabilidade pessoal pela vitimização, a reflexão pelo slogan. Tudo vira “sintoma”. Tudo exige acolhimento incondicional — mesmo quando seria mais honesto oferecer limites e direcionamento. A ciência psicológica é, cada vez mais, invocada como escudo ideológico, não como instrumento de compreensão do ser humano”, acrescenta.
O Mercado do Sintoma e o Lucro da Novidade
O médico esclarece que é preciso reconhecer que há incentivos claros para essa dinâmica. “A mídia sensacionalista — em especial nas plataformas digitais — se alimenta da viralização de termos novos, chocantes e que gerem engajamento. “Zelofilia” cumpre perfeitamente esse papel: é esquisito, desperta curiosidade e mistura erotismo com psicologia, dois ingredientes de alto impacto emocional. Ao invés de informar, esse tipo de conteúdo performa, dramatiza, e vende uma caricatura do comportamento humano”.
Ele diz que nesse ambiente, a lógica é simples: se existe um nome, então deve ser real. “E se é real, então alguém deve se identificar com isso. E se me identifico, logo “sou assim”. Em pouco tempo, termos como zelofilia deixam de ser conceitos para se tornarem bandeiras identitárias. O adoecimento, ou a sua aparência, torna-se forma de pertencer, de reivindicar atenção, de encontrar grupo”.
O médico reflete que essa perversão simbólica do sofrimento emocional não é trivial. “Quando o sintoma vira capital social, perdemos a chance de tratá-lo com seriedade. Pior: reforçamos a ideia de que estar bem emocionalmente é ser alienado, e que questionar esse vitimismo é falta de empatia”.
Por Que Precisamos Recuperar o Rigor
João Borzinho afirma que não se trata de negar que existam experiências emocionais intensas, confusas ou até mesmo fora do esperado. “Nem de dizer que todo sofrimento é mimimi. O que está em jogo aqui é outro ponto: a confusão entre nomear e compreender. Dar nome a algo não é o mesmo que entendê-lo. Transformar emoções em rótulos clínicos, sem base científica, não ajuda ninguém. Ao contrário, obscurece a realidade, cria categorias artificiais e afasta as pessoas de soluções reais”.
Ele destaca que em vez de continuarmos expandindo o vocabulário do vitimismo disfarçado de ciência, deveríamos promover um retorno à maturidade emocional e intelectual. “Isso inclui reconhecer que emoções como o ciúmes são parte do repertório humano normal. Que o desconforto também é uma ferramenta de crescimento. E que a saúde mental não se constrói fugindo da dor, mas aprendendo a interpretá-la com responsabilidade”, pondera.
