A detenção de Nicolás Maduro por forças norte-americanas reacendeu discussões que vão além da crise política venezuelana e voltam a ocupar espaço no debate público latino-americano.
No Brasil, episódios envolvendo a Venezuela historicamente extrapolam a política externa e passam a operar como símbolos em disputas ideológicas, eleitorais e morais.
Para compreender de que forma esse cenário internacional pode atravessar o debate político brasileiro e influenciar a construção das agendas rumo às eleições de 2026, ouvimos o cientista social Jeulliano Pedroso, especialista em comportamento eleitoral e processos políticos.
Na análise, o especialista explica por que o impacto não se dá, necessariamente, na decisão direta do voto, mas na ativação de temas sensíveis como democracia, segurança pública, migração e alinhamentos ideológicos — elementos centrais na disputa eleitoral brasileira:
A eventual prisão de Nicolás Maduro pode influenciar o debate eleitoral brasileiro em 2026?
A influência não seria direta, no sentido clássico de mudar votos automaticamente, mas ela pode operar em várias camadas do debate eleitoral. A Venezuela já se mostrou, em eleições anteriores, um tema simbólico poderoso no Brasil. Em disputas presidenciais passadas, o caso venezuelano apareceu como um instrumento de confronto ideológico, especialmente em debates sobre compromisso com a democracia, autoritarismo e alinhamentos internacionais.
Esse tipo de pauta já esteve presente tanto na eleição da presidente Dilma Rousseff quanto, mais recentemente, no embate entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Não se trata apenas de política externa, mas de um símbolo mobilizador para determinadas bolhas eleitorais.
Esse debate tende a ser mais ideológico ou prático?
Predominantemente ideológico, mas com efeitos práticos relevantes. Em eleições altamente polarizadas, temas internacionais funcionam como marcadores morais e identitários. O eleitor não está discutindo detalhes da política venezuelana, mas valores: democracia, liberdade, autoritarismo. Dito isso, há pelo menos duas dimensões práticas que podem contaminar o debate eleitoral de 2026. A primeira é a questão migratória. O Brasil recebeu, segundo dados da Operação Acolhida e do ACNUR, mais de 430 mil venezuelanos desde 2018, com forte concentração em estados como Roraima, Amazonas, São Paulo e Paraná. Dependendo do desfecho político na Venezuela, o fluxo pode diminuir, se estabilizar ou até se reverter parcialmente, mas isso não acontece de forma imediata.
Como a migração entra no debate eleitoral? Ela entra principalmente pela interseção entre mercado de trabalho e políticas de assistência social. Em muitos municípios brasileiros, especialmente em regiões com baixo desemprego, imigrantes venezuelanos foram absorvidos de forma relativamente bem-sucedida em setores como serviços, indústria leve e agronegócio.
Hoje, estrangeiros já respondem por cerca de 4% das contratações do mercado formal de trabalho brasileiro, sendo que quase metade desse contingente é de origem venezuelana. Qualquer mudança brusca nesse fluxo tende a gerar debate sobre emprego, políticas públicas e capacidade do Estado, tanto nas eleições presidenciais quanto nas disputas estaduais, sobretudo nos estados que receberam maior número de imigrantes.
Governadores e presidenciáveis já estão se posicionando?
Sim, e isso é bastante revelador. Lideranças do campo da centro-direita e da direita, como governadores e pré-candidatos nacionais, rapidamente se manifestam sobre a Venezuela porque seu eleitorado espera posicionamentos claros em relação à democracia, regimes autoritários e alinhamentos ideológicos. Esse tipo de manifestação não é opcional. Ela faz parte do contrato simbólico entre candidato e eleitor. Mesmo quando o impacto eleitoral direto é limitado, o silêncio custa caro.
- Há outros temas que podem ser ativados indiretamente por esse cenário?
Sem dúvida. Um efeito colateral importante é o tema da segurança pública e do crime organizado transnacional. Ainda que o debate público muitas vezes reduza a Venezuela à questão do petróleo, investigações internacionais recentes colocam o foco em narcotráfico, rotas ilegais, lavagem de dinheiro e conexões financeiras transnacionais.
No Brasil, segurança pública já aparece de forma recorrente como uma das principais preocupações do eleitorado, segundo pesquisas do Datafolha, Ipec e AtlasIntel. Um estudo recente coordenado pelo cientista político Felipe Nunes, da Quaest, mostra que o tema está consolidado como central no imaginário eleitoral brasileiro.
Quando entram em cena operações internacionais, bloqueios financeiros e exposição de redes criminosas, esse debate tende a ganhar ainda mais força. E o Brasil não está imune: há regiões inteiras sob influência de organizações criminosas, inclusive com ramificações no sistema financeiro.
- Em síntese, qual é o efeito eleitoral mais provável?
A tendência é que não haja um efeito eleitoral direto e mensurável ligado à figura de Nicolás Maduro, mas sim um impacto forte no debate público. A questão venezuelana serve como combustível simbólico para disputas ideológicas, ativa discussões sobre migração, mercado de trabalho e, principalmente, segurança pública.
Em um mundo altamente conectado, imaginar que eventos internacionais não influenciam eleições nacionais é um erro analítico. A influência existe menos na decisão pontual do voto e mais na construção das agendas, dos discursos e das expectativas do eleitor. Se há um tema que deve se consolidar como central em 2026, é a segurança pública. E esse debate passa, inevitavelmente, pelo que acontece fora das nossas fronteiras também.
Jeulliano Pedroso é cientista social, especialista em Ciência Política e mestre em Antropologia Social. Tem o campo político e eleitoral como principal objeto de estudo, com atuação contínua na análise de comportamento eleitoral, campanhas e sistemas políticos. Acompanha processos eleitorais de forma ativa há mais de duas décadas.
