Outro dia, uma paciente de 43 anos sentou na minha frente e disse: “Doutora, meu cabelo está caindo muito. Deve ser estresse.” Pedi os exames. Quando os resultados chegaram, o estradiol dela já estava em queda, alem de outras alteraçoēs. Ela nem desconfiava, mas o corpo dela já estava entrando na transição menopausal. O cabelo foi um dos primeiros a avisar.
Essa história se repete no meu consultório há mais de vinte anos. Atendo mulheres desde os trinta e poucos até os setenta, e o padrão é parecido: a queda começa silenciosa, a mulher acha que é shampoo errado, estresse, água da cidade. Tenta biotina porque a amiga indicou. Compra um tônico capilar que viu no Instagram. E o cabelo continua caindo. Porque ninguém olhou para o que realmente está acontecendo.
O folículo capilar — a estrutura que produz cada fio de cabelo — é um tecido sensível ao estrogênio. Uma revisão publicada em 2025 na revista Maturitas, feita por pesquisadores da Universidade de Toronto e da Universidade da Califórnia, mostrou que as mudanças hormonais da transição menopausal afetam diretamente o ciclo do cabelo: a fase de crescimento encurta, o fio fica mais fino, a densidade diminui. E isso pode começar até dez anos antes da última menstruação.
Leia de novo: dez anos antes.
Isso significa que uma mulher de 40 anos, menstruando normalmente, pode já estar perdendo cabelo por causa de uma oscilação hormonal que ninguém investigou.
O mecanismo é mais simples do que parece. Com menos estrogênio, os androgênios (hormônios que mulheres também têm) passam a predominar. A testosterona é convertida em DHT, uma substância que encolhe o folículo. O fio que era grosso e firme vai ficando ralo, fraco, quase transparente. É o que a medicina chama de miniaturização folicular. E acontece principalmente no topo da cabeça e na risca do cabelo — justo onde a gente mais nota.
Dados de uma revisão da Frontiers in Pharmacology mostram que até 52% das mulheres após a menopausa apresentam afinamento visível dos fios. Oitenta por cento aos 60 anos já têm algum grau de perda. São números enormes. E mesmo assim, a queda de cabelo feminina continua sendo tratada como problema cosmético — quando, na verdade, é um sinal hormonal que merece investigação.
Mas o que mais me preocupa, depois de tantos anos atendendo mulheres, não é o fio que cai. É o que cai junto com ele.
Quando o cabelo começa a afinar, muitas mulheres entram numa espiral que ninguém vê. Primeiro, ela para de se olhar com atenção no espelho. Depois, começa a evitar sair com o cabelo solto. Vai diminuindo o cuidado: para que se arrumar se não me sinto bonita? Deixa de ir a um jantar. Recusa um convite. Aos poucos, vai se recolhendo — e nem percebe que o motivo é o cabelo. É inconsciente, mas é real. E é extremamente relevante na minha prática clínica: a autoestima vai embora antes mesmo de a mulher entender o que está acontecendo.
Pesquisas confirmam isso. Um estudo publicado em 2024 nos Annals of Dermatology avaliou mais de 200 mulheres com queda capilar e encontrou relação direta entre a severidade da perda e o aumento de ansiedade, sintomas depressivos e isolamento social. Não é vaidade. É saúde mental.
E não sou só eu que vejo isso no consultório. Essa dor já chegou ao público, na voz de mulheres que a gente conhece. A cantora Maiara falou abertamente sobre seu diagnóstico de alopecia androgenética, contando que chegou a evitar espelhos e que usou laces por anos para esconder a perda. A atriz Jada Pinkett Smith descreveu sua alopecia como algo que a deixou “tremendo de medo” — e escolheu raspar a cabeça para retomar o controle. Viola Davis contou que acordou um dia com uma faixa calva no meio do couro cabeludo, aos 28 anos. Tyra Banks perdeu cabelo por estresse. Selma Blair, após o parto. Nenhuma dessas causas era menopausa ou climatério — eram outros fatores. Mas o sofrimento é o mesmo. E a invisibilidade do problema também.
O que essas histórias têm em comum? Todas demoraram para procurar ajuda. Todas acharam, em algum momento, que era “só uma fase”. E todas descobriram que por trás da queda havia algo que podia ser investigado, compreendido e tratado.
Então eu te pergunto: você já passou por isso? Ou conhece alguém que está passando?
Se você tem mais de 38 anos e percebeu que o rabo de cavalo está mais fino, que o cabelo mudou de textura, que o elástico dá mais voltas do que antes — não normalize. Não tome o que a amiga toma. Não espere a menopausa chegar para investigar. Procure um profissional que olhe para você de forma integrada — não só para o couro cabeludo, mas para o que seus hormônios, sua nutrição e seu estilo de vida estão dizendo.
Seu cabelo está te dando um recado. E vale a pena ouvir.
Dra. Isabel Martinez (CRM-SP 115398 | Coren-SP 89562) Médica, fundadora da Climex Academy e criadora do conceito Climex®️. CEO | Climex®️ | Clínica Martinez®️ Procure sempre seu médico de confiança.
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Referências científicas
* Gupta AK, Economopoulos V, Mann A, Wang T, Mirmirani P. Menopause and hair loss in women: Exploring the hormonal transition. Maturitas. 2025 Jul;198:108378. doi: 10.1016/j.maturitas.2025.10837
* Rinaldi S et al. The Menopausal Transition: Is the Hair Follicle “Going through Menopause”? Biomedicines. 2023;11(11):3041. doi: 10.3390/biomedicines11113041. PMC10669803.
* Huang Z et al. Botanical drug preparations for alleviating hair loss in menopausal women: a global ethnopharmacological mini-review. Front Pharmacol. 2025;16:1725691. doi: 10.3389/fphar.2025.1725691.
* Hwang HW et al. The Quality of Life and Psychosocial Impact on Female Pattern Hair Loss. Ann Dermatol. 2024 Feb;36(1):44-52. doi: 10.5021/ad.23.082. PMC10861302.
