Nos consultórios onde se realizam procedimentos estéticos, cresce um fenômeno silencioso: pessoas que chegam querendo melhorar a aparência — e saem parecendo outra pessoa. Entender por que isso acontece pode ser mais importante do que qualquer procedimento.
Há algumas semanas, uma paciente chegou ao consultório com o celular na mão.
Abriu a tela, mostrou uma foto, e disse:
— Quero ficar assim.
Na imagem, estava uma atriz conhecida. Uma mulher linda. Mas não era ela.
Eu olhei para ela. Depois para a foto. E fiz uma pergunta que raramente alguém faz nesse momento:
— O que você quer preservar do seu rosto?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse:
— Nunca ninguém me perguntou isso.
Esse silêncio me acompanha.
Porque ele revela algo que vai muito além da estética — e que precisa ser dito com clareza:
Há uma diferença enorme entre harmonizar um rosto e apagar uma identidade.
A harmonização facial nasceu com um propósito legítimo: equilibrar proporções, respeitar a anatomia e preservar a identidade do rosto.
O problema começa quando a busca deixa de ser por harmonia — e passa a ser por comparação.
Hoje não é raro ouvir pedidos como:
— “Quero a boca daquela atriz.”
— “Quero a mandíbula daquela influenciadora.”
— “Quero a bochecha daquela modelo.”
E assim, aos poucos, vamos nos construindo em pedaços.
Uma boca de uma.
Um malar de outra.
Um nariz de outra.
Mas o rosto humano não foi feito para ser montado como um quebra-cabeça.
O que o cérebro reconhece
A neurociência ajuda a explicar isso.
Nosso cérebro possui uma região chamada Fusiform Face Area, responsável por reconhecer rostos. Ela identifica proporções, padrões e pequenas variações que formam aquilo que chamamos de identidade facial.
É por isso que conseguimos reconhecer instantaneamente alguém que não vemos há anos.
E também por isso que percebemos quando algo parece estranho em um rosto — mesmo sem saber exatamente explicar o motivo.
O cérebro humano reconhece rostos.
Não fragmentos de beleza.
A cultura da comparação permanente
Ao mesmo tempo, vivemos em uma cultura de comparação permanente.
A teoria da comparação social, descrita pelo psicólogo Leon Festinger, mostra que avaliamos nossa aparência comparando-nos com outras pessoas.
Nas redes sociais, essa comparação acontece centenas de vezes por dia.
Estudos mostram que a exposição constante a imagens idealizadas aumenta a insatisfação com a própria aparência e o interesse por procedimentos estéticos (Fardouly et al., Body Image, 2015).
Talvez isso explique um fenômeno curioso que observamos hoje: pacientes cada vez mais jovens procurando modificar o rosto antes mesmo que o envelhecimento comece.
Não é apenas medo do tempo.
É, muitas vezes, o desejo de parecer outra pessoa.
Quando a moda antecipa o debate
Curiosamente, essa discussão ultrapassou os consultórios e chegou até a arte contemporânea.
No início deste ano, o desfile Maison Margiela Artisanal 2024, dirigido por John Galliano em Paris, chamou atenção mundial por um detalhe curioso: os modelos surgiram com rostos quase irreais, pele extremamente lisa, lábios marcados e uma aparência que lembrava bonecos de porcelana.
Uma estética que muitos críticos interpretaram como uma provocação sobre a artificialidade da beleza contemporânea.
Talvez a arte esteja apenas refletindo o que já acontece fora das passarelas.
Os números e o movimento de volta
Segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), mais de 34 milhões de procedimentos estéticos foram realizados no mundo em 2023, sendo a maioria deles procedimentos não cirúrgicos.
Ao mesmo tempo, médicos começam a observar um movimento curioso: pacientes que procuram dissolver preenchimentos feitos anos antes.
Uma espécie de retorno.
Um desejo de reencontrar o próprio rosto.
Talvez estejamos entrando em uma nova fase da estética.
Uma fase em que voltamos a fazer uma pergunta simples — e profundamente humana:
Quem somos quando olhamos para o espelho?
Porque o rosto não é apenas estética.
É memória.
É expressão.
É história.
E nenhuma tecnologia deveria apagar isso.
Se você já se fez essa pergunta — “ainda me reconheço no espelho?” — compartilhe este texto.
Ela merece ser feita em voz alta.
Dra. Isabel Martinez | CRM-SP 115398
Médica |Fundadora da Climex Academy e da Clínica Martinez
Referências
Fardouly J. et al. Social comparisons on social media: The impact on body image. Body Image, 2015. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25935638/
Ramphul K.; Mejias S. Is Snapchat Dysmorphia a Real Issue? Cureus, 2018. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30305990/
Cohen JL et al. Understanding the Role of Hyaluronidase in the Reversal of Hyaluronic Acid Fillers. Aesthetic Surgery Journal. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29228179/
ISAPS Global Survey 2023. https://www.isaps.org/discover/news/isaps-global-survey/
